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1 Janeiro, 2012

O meio ambiente e os problemas ecológicos

reflet_ambienteApesar dos alertas e de uma progressiva tomada de consciência sobre esta questão, continuamos a viver num meio ambiente ameaçado:

  • A ameaça da terra sobreaquecida – Há já algum tempo que se fala do “Efeito estufa”, ou seja, o sobreaquecimento do nosso planeta pelo facto da camada de ozono, que protege a vida sobre a terra das radiações ultra violetas nocivas e do calor directo do sol, estar a desaparecer na sua globalidade. E este fenómeno já não diz respeito somente às regiões polares: todo o planeta está a ser afectado. As consequências são vastíssimas, nomeadamente os danos físicos em todas as formas de vida, quer existam nos mares quer fora deles (um deles é, por exemplo, o aumento de tumores de pele). Dizem os relatórios que uma das consequências mais inquietantes a propósito do aquecimento global – o clima completamente alterado – é uma consequência das feridas que temos feito à atmosfera do nosso planeta ao longo deste último quarto de século. As gerações futuras terão de viver num mundo mais quente e mais instável.
  • reflet_ambiente1A ameaça da terra poluída – Uma segunda ameaça recai sobre o ambiente, e portanto sobre a saúde e sobre a qualidade de vida: a poluição através de substâncias tóxicas, nocivas: a poluição radioactiva (escórias das centrais radioactivas), a poluição química (atirada para o ar, na água, nos solos como pesticidas, detergentes químicos, …), a poluição orgânica (que vai parar quase sempre à água). Ainda sobre este assunto, não nos esqueçamos da poluição dos materiais plásticos que são praticamente indestrutíveis.
  • A ameaça da terra desequilibrada – Uma última ameaça diz respeito à destruição dos recursos naturais de uma forma desequilibrada devido à ação do homem e dos seus comportamentos: a devastação das florestas (através dos fogos e do corte das árvores) que faz com que haja alterações no equilíbrio hidrogeológico (menos chuva e menor capacidade da terra a absorver); a produção em excesso de veículos e a poluição atmosférica resultante da combustão e da libertação de gazes nocivos.

Perante tais ameaças, muitas são as organizações, governos e pessoas que se têm preocupado com tal fenómeno: a cimeira do Rio de Janeiro Junho de 1992 e as manifestações das organizações ecologistas são disso um sintoma.

Também a Igreja Católica tem reflectido e abordado esta questão frequentemente. Na Encíclica inaugural do Pontificado de João Paulo II, o saudoso Papa sublinha que «parece que nos tornamos cada vez mais conscientes que a exploração da terra, do planeta em que vivemos, exige um planeamento racional e honesto. Tal exploração (…), o desenvolvimento da técnica não controlado e autenticamente humano, trazem muitas vezes consigo a ameaça para o ambiente natural do homem, alienam-no nas suas relações com a natureza e separam-no da própria natureza»(1). No mesmo sentido, o Papa reafirma mais tarde: «Entre os sinais positivos do tempo presente é preciso registar, ainda, uma maior consciência dos limites dos recursos disponíveis e da necessidade de respeitar a integridade e os ritmos da natureza e de os ter em conta na programação do desenvolvimento, em vez de os sacrificar a certas concepções demagógicas do mesmo. É afinal, aquilo a que se chama hoje preocupação ecológica»(2).

reflet_ambiente2Na Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz de 1990 intitulada «Paz com Deus Criador, Paz com toda a Criação», são usadas expressões, tais como: «Crise ecológica como problema moral», «consciência ecológica», «educação para a responsabilidade ecológica».
Também a Conferência Episcopal Portuguesa no Documento «Alguns aspectos da actual Sociedade Portuguesa» (1991) refere que «começa a despertar uma consciência ecológica» (n.º 8).

Apesar de tudo, «O homem, tomado mais pelo desejo do TER e do PRAZER do que pelo de SER e de CRESCER, consome de maneira excessiva e desordenada os recursos da terra e da sua própria vida».

Na raiz da destruição insensata do ambiente natural, há um erro antropológico, infelizmente muito espalhado no nosso tempo. O homem, que descobre a sua capacidade de transformar e, desse modo, criar o mundo com o próprio trabalho, esquece que este se desenrola sempre sobre a base da doação (do DOM) das coisas por parte de Deus»(3). Neste sentido, e também a meu ver, é aqui que reside a raiz do problema actual da ameaça ao meio ambiente. A imagem que o homem moderno criou de si mesmo é egocêntrica (ou “egocentrista”):

  • este homem moderno afirma-se enquanto pensa [«res cogitans» (coisa pensante) de Descartes], pensa enquanto conhece e conhece enquanto domina o que possui. Este homem é o “ego” (eu) sem o “alter” (outro): a sua identidade afirma-se sem o outro homem;
  • paralelamente, exalta a quantidade («res extensa») face à qualidade e a qualidade face à dignidade: o homem mede-se pelo TER a todos os níveis em vez do SER;
  • ao mesmo tempo faz, fabrica (homo faber), produz, transforma, destrói o meio envolvente para satisfazer as suas necessidades, necessidades estas quase sempre criadas por ele próprio;
  • e por fim, este homem converte-se em homem criador (homo creator), recusando qualquer referência ao Criador do mundo – Deus.

Nasce assim a exaltação do poder e da força, cria-se o “super-homem”, que se orienta pela ética da técnica, que se traduz na ausência de quaisquer valores morais; é o homem do optimismo absoluto, da fé arrogante no progresso universal, necessário, ilimitado e a qualquer preço; é o homem destruidor para satisfazer as suas necessidades: destruidor das coisas, da natureza e, até, do outro homem. Contudo, e no final de tudo, este homem tornou-se vítima de si mesmo e desencantado com as suas conquistas sente-se vazio. Ele que desvendou os segredos da natureza, transformou-a à imagem dos seus projectos, sujeitou-a ao seu poder, destruiu-a, não se sente em sua “casa”. Exorcizou os poderes ameaçadores do mundo, inclusive afirmou que “Deus morreu” afastando-O da sua vida, mas experimenta novos medos e angústias, não encontrando mais espaço para si mesmo.

E a crise que envolve o homem de hoje deve-se sobretudo à recusa do homem em conviver com as outras criaturas e com Deus no «jardim» do mundo e da história; à pretensão do homem habitar sozinho o centro do cosmos, de ser o “dono” do mundo.

reflet_ambiente3É necessário regressar às origens, redescobrir, reencontrar, como os autores do Livro dos Génesis referem ou como proclama o Profeta Isaías, a harmonia da criação (Gén. 2, 8-15; Is. 11. 65). É necessário que o homem reencontre o seu lugar no universo, a sua identidade: criado … «à imagem e semelhança de Deus» (Gén. 1, 26), “senhor” sobre todas as outras criaturas à imagem e semelhança de “Senhor” absoluto que é Deus.
Ora, Deus é DOM de Si mesmo ao outro que é o homem; Deus doa-se por Amor para que o homem viva; Deus cria e cuida do mundo de força inteligente, em liberdade. Assim, também o homem tem que ser DOM de si mesmo aos outros e às criaturas, cuidando delas de forma inteligente e em liberdade, respondendo desta forma à dádiva de Deus.

Por isso, a teologia cristã afirma, à luz da revelação de Cristo, um aspecto decisivo: tal como Jesus, o Cristo, é a «imagem visível do Deus invisível» (Col. 1, 15), sinal de comunhão e do amor, de abertura à alteridade (ao outro), de esvaziamento de si mesmo para dar espaço e vida ao outro, assim também o homem deve ser comunhão e amor com as outras criaturas e com Deus.
Neste sentido, temos que reafirmar a Fraternidade como valor moral e normativo: amar e cuidar de si mesmo, dos outros e das coisas; sentir o mundo como seu irmão, todos criados por Deus-Pai, como sentia e proclamava S. Francisco de Assis: «Louvado seja Deus na Natureza, Mãe gloriosa e bela da Beleza, e com todas as tuas criaturas: pelo irmão sol… pelas irmãs Estrelas, pela irmã lua,… pela irmã nuvem,… pelo irmão vento,… pela irmã madre Terra,… ».

Tó-Zé Pinto

 

(1) JOÃO PAULO II, Redemptor Hominis, n.º 15.
(2) JOÃO PAULO II, Sollicitudo Rei Socialis, n.º 26.
(3) JOÃO PAULO II, Centesimus Annus, n.º 37

 

Bibliografia consultada:
DOMINGUES, Frei Bernardo, “Clonagem e algumas perspectivas éticas” in Acção Médica. Ano LXIV, n.º 3. Porto – Julho-Agosto de 2000.
JOÃO PAULO II, Donum Vitae (22.02.87), em AAS 80 (1988), pp. 70-102.
KAHN, Axel, PAPILLON, Fabrice, A clonagem em questão. Instituto Piaget. Lisboa – 1999.
NUNES, Rui e MELO, Helena, A ética e o direito no início da vida humana. Gráfica de Coimbra. Coimbra – Outubro de 2001.
OSSWALD, walter, “Hallo, Dolly, Hans Jonas e seis caveats” in Brotéria – Revista de cultura. Vol. 144, Lisboa, Maio-Junho de 1997. pp. 581-585.
PINTO, José Rui da Costa, Questões actuais de ética médica (4.ª Edição). Editorial A. O., Braga – 1990.
PONTIFÍCIA ACADEMIA PARA A VIDA, “Declaração sobre a produção e o uso científico e terapêutico das células estaminais embrionárias humanas” in Acção Médica. Ano LXIV, n.º 3. Porto – Julho-Setembro de 2000.
SERRÃO, Daniel e NUNES, Rui (Coord), Ética em cuidados de saúde. Porto Editora. Porto – 1998.
SERRÃO, Daniel, «O genoma Humano: personalidade humana e sociedade do futuro» in Brotéria – Revista de cultura. Vol. 146, Lisboa – Maio-Junho de 1998.
SERRÃO, Daniel, “Respuesta europea a la clonacion humana” in Cuadernos de Bioética. Vol. IX, n.º 36. Santiago – Outubro / Dezembro de 1998. pp. 832-833.
TAVARES, José Rueff, «Clonagem e engenharia genética» in Acção Médica. Ano LXIV, n.º 1-2. Porto – Março-Abril de 2000.